Menu

Nepal: Queda do Regime Comunista e a Força de uma Sociedade que Aprendeu a Ser Livre

Kathmandu

Ascensão e “declínio” do comunismo no Nepal

O Nepal, país himalaio de cerca de 30 milhões de habitantes espremido entre Índia e China, viveu décadas de instabilidade política marcadas por monarquias absolutistas e levantes populares. A monarquia nepalesa, que durou 239 anos, foi abolida em 2008 após um acordo de paz com rebeldes maoístas que colocou fim a uma guerra civil de dez anos e mais de 17 mil mortos. Com o fim do regime dos reis, o país se tornou uma república democrática multipartidária, abrindo caminho para que partidos de orientação comunista chegassem ao poder pelo voto. (reuters.com).

Logo após a transição, líderes maoístas, outrora guerrilheiros, venceram a eleição de 2008 e assumiram o governo. No entanto, divergências ideológicas e dificuldades em redigir uma nova Constituição levaram à queda rápida desse primeiro governo comunista. Nos anos seguintes, o Nepal alternou entre diferentes primeiros-ministros e alianças partidárias – foram 14 governos desde 2008, reflexo de um cenário volátil que dificultou a estabilidade política e o desenvolvimento econômico. Ainda assim, os partidos comunistas mantiveram forte apelo, especialmente entre as classes populares, prometendo reformas sociais profundas após séculos de desigualdade sob a monarquia. (reuters.com, cnnbrasil.com.br).

O auge da influência comunista veio nas eleições gerais de 2017. Duas legendas rivais – o Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado), liderado por KP Sharma Oli, e o Partido Comunista do Nepal (Centro Maoísta), de Pushpa Kamal Dahal (Prachanda) – formaram uma aliança inédita. Unidos, obtiveram uma vitória arrasadora nas urnas, conquistando juntos quase dois terços do Parlamento. Em 2018, fundiram-se em uma sigla única, autodenominada Partido Comunista do Nepal, concentrando poder como nunca antes na história democrática do país. Essa consolidação gerou expectativas de um governo forte e estável: seria a chance de provar que um partido de esquerda, mesmo atuando dentro da democracia multipartidária, poderia oferecer boa governança e prosperidade material ao povo. (kathmandupost.com).

Porém, a realidade desviou-se do prometido. O governo Oli-Prachanda iniciou com popularidade em alta e planos grandiosos – falava-se em ferrovias trans-himalaias ligando ao Tibete, aeroportos internacionais e rodovias modernas . Com ampla maioria parlamentar e uma oposição fraca, nada parecia impedir a implementação de reformas. Contudo, realizar obras e mudanças estruturais se mostrou muito mais difícil que anunciá-las. Em pouco tempo, o governo passou a recuar em suas metas e a se perder em velhas práticas políticas: distribuir cargos, recursos e privilégios a uma camarilha de aliados revelou-se mais vantajoso para a manutenção do poder do que incentivar o empreendedorismo e a meritocracia em larga escala. Denúncias de corrupção foram ignoradas; em vez de combatê-las, o governo garantiu impunidade para figuras próximas acusadas de desvio, ao mesmo tempo em que perseguia opositores sob o pretexto de puni-los por corrupção. Tais rumos corroeram a confiança depositada pelo eleitorado. (kathmandupost.com).

Nos anos seguintes, o que se viu foi uma escalada autoritária preocupante. Amparado em sua maioria legislativa, o governo comunista pressionou instituições e cerceou liberdades civis em resposta às críticas crescentes. Projetos de lei buscaram restringir a liberdade de imprensa e direitos civis básicos. Em Kathmandu, decretou-se toque de recolher em locais antes habituados a protestos pacíficos, numa clara tentativa de sufocar manifestações populares. O aparato estatal também foi instrumentalizado: órgãos públicos e mesmo o respeitado cargo de presidente da República foram tomados por leais ao primeiro-ministro Oli, graças a ordens e decretos aprovados a toque de caixa. Paralelamente, um exército de “trolls” virtuais alinhados ao governo passou a atacar e intimidar críticos nas redes sociais. Esse acúmulo de medidas autoritárias e nepotistas destoava completamente das promessas de respeito à democracia e combate à pobreza feitas em campanha.

Internamente, a coalizão comunista também rachou. As tensões entre Oli e Prachanda aumentaram quando Oli se recusou a cumprir um acordo de rodízio no poder – os dois haviam combinado de dividir o mandato de primeiro-ministro, mas Oli mostrou-se relutante em largar o cargo. Essa postura, somada ao estilo cada vez mais personalista de Oli, alienou não apenas os maoístas de Prachanda, mas também membros de seu próprio partido UML. A disputa interna chegou ao ápice no fim de 2020, quando Oli tomou a drástica decisão de dissolver o Parlamento unilateralmente para prevenir uma moção de desconfiança que poderia derrubá-lo. A manobra foi amplamente vista como inconstitucional e gerou indignação entre juristas, imprensa e sociedade civil. Mesmo assim, Oli insistiu na estratégia e dissolveu o Legislativo novamente alguns meses depois, ao perceber que perderia a maioria para a oposição formar um novo governo. (kathmandupost.com).

A resposta das instituições democráticas e da sociedade não tardou. Em fevereiro de 2021, a Suprema Corte nepalesa reverteu a primeira dissolução, considerando-a ilegal, e posteriormente também anulou a segunda tentativa golpista de Oli. Numa decisão histórica de 12 de julho de 2021, o Judiciário não só restaurou o Parlamento como destituiu Oli do cargo de primeiro-ministro, nomeando em seu lugar Sher Bahadur Deuba, líder do partido liberal Congresso Nepali. Ficava evidenciado que, apesar dos arroubos autoritários, o Nepal possuía freios institucionais capazes de conter os excessos do governo. Oli deixou o poder de forma desonrosa, “lambendo as feridas” de um revés político auto-infligido, como descreveu um comentarista local. Mais importante, ele perdeu algo impossível de recuperar: a confiança da maioria dos nepaleses, que havia acreditado que os comunistas os libertariam da pobreza crônica. Para muitos analistas, a queda abrupta desse “governo comunista” – que durou apenas três anos e meio – serviu como prova de que os críticos do comunismo no Nepal estavam certos em duvidar de sua capacidade de promover prosperidade e boa governança. A ascensão meteórica foi seguida de um declínio igualmente rápido, deixando clara a mensagem de que não basta chegar ao poder em nome do povo: é preciso respeitar a democracia e entregar resultados, sob pena de ser rejeitado por essa mesma sociedade. (kathmandupost.com).

Crise e cenário político atual

Desde a queda do governo Oli em 2021, o xadrez político nepaleso continuou turbulento. Nenhum partido detinha maioria absoluta e as alianças se tornaram voláteis. Ironias da política levaram, por exemplo, a que Prachanda – ex-líder guerrilheiro maoísta – voltasse ao poder em 2022 numa coalizão inicial com seu antigo rival Oli, apenas para romper a parceria meses depois e se aliar aos liberais do Congresso Nepali. Essa dança de cadeiras culminou, em julho de 2024, com Prachanda perdendo o posto de primeiro-ministro após um acordo entre os dois maiores partidos tradicionais (Congresso Nepali e UML de Oli) para afastá-lo. Assim, incrivelmente, KP Sharma Oli retornou ao cargo máximo do país pela terceira vez, liderando um governo de “união nacional” junto com seu ex-adversário Sher Bahadur Deuba. A justificativa pública dessa aliança improvável era a necessidade de estabilidade, mas muitos críticos a viam apenas como uma forma de as velhas elites manterem seu domínio, sem um programa claro de reformas (eastasiaforum.org).

Foi nesse contexto que, em setembro de 2025, o Nepal mergulhou na pior onda de agitação civil das últimas décadas. O estopim da crise foi aceso quando o governo Oli impôs, no início de setembro, um bloqueio nacional às principais redes sociais – incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e X (Twitter) – sob o argumento de combater fake news e discurso de ódio. A medida, vista pela população conectada como censura autoritária, causou revolta instantânea, especialmente entre os jovens. Protestos espontâneos, liderados pelo que se convencionou chamar de Geração Z (jovens de 13 a 28 anos), eclodiram primeiro em Kathmandu e rapidamente espalharam-se pelo interior do país. Os manifestantes denunciaram não apenas a mordaça digital, mas também a corrupção endêmica e a falta de oportunidades econômicas – problemas que afetam o Nepal há décadas e que, segundo eles, o governo atual pouco fez para resolver. Em questão de dias, as ruas da capital foram tomadas por milhares de estudantes secundaristas e universitários, munidos de cartazes com dizeres contundentes: “Fechem a corrupção, não as redes sociais” e “Jovens contra a corrupção” eram algumas das palavras de ordem estampadas nas passeatas. (cnnbrasil.com.br, veja.abril.com.br).

A reação das autoridades foi dura e imediata. As forças de segurança partiram para a repressão, empregando munição real, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra multidões que desafiavam um toque de recolher imposto às pressas. Nos confrontos que se seguiram, a situação saiu do controle. Em 8 de setembro, manifestantes furiosos romperam barricadas policiais e chegaram a invadir o complexo do Parlamento nepalês, ateando fogo em partes do prédio. Viaturas e postos de polícia foram incendiados nas ruas próximas. A escalada de violência levou a um trágico saldo inicial de pelo menos 19 mortos e centenas de feridos em dois dias – entre as vítimas, muitos jovens manifestantes baleados e também policiais feridos por pedradas e confrontos corpo a corpo. “Foi um massacre indiscriminado”, relatou à imprensa um participante do protesto, descrevendo que seu amigo ao lado foi atingido pelos disparos. Hospitais de Kathmandu, como o Centro Nacional de Trauma, encheram-se de feridos graves; famílias aguardavam notícias de seus parentes enquanto voluntários organizavam doações de sangue para os feridos em estado crítico. (newindianexpress.com, veja.abril.com.br, cnnbrasil.com.br).

Conforme a indignação crescia, nem mesmo figuras ligadas ao governo foram poupadas pela fúria popular. Manifestantes incendiaram a residência particular do primeiro-ministro Oli na região de Bhaktapur, forçando sua família a fugir às pressas. Casas de ex-líderes, como a do ex-premiê Prachanda, também foram atacadas por turbas revoltadas. Diante do caos, o exército foi acionado para patrulhar as ruas e proteger edifícios-chave – soldados isolaram o Parlamento e pontos estratégicos de Kathmandu, que amanheceu deserta sob forte vigilância militar e um rígido toque de recolher na semana seguinte aos distúrbios. O aeroporto internacional chegou a ser fechado temporariamente por questões de segurança durante os piores dias de conflito. (cnnbrasil.com.br, reuters.com, newindianexpress.com).

Pressionado externa e internamente, KP Sharma Oli não teve alternativa a não ser ceder. Em 9 de setembro de 2025, o primeiro-ministro apresentou sua renúncia, reconhecendo a “situação extraordinária” no país. Foi a segunda queda de Oli em pouco mais de quatro anos – desta vez provocada não por articulações parlamentares ou decisões judiciais, mas diretamente pela voz das ruas. O presidente Ramchandra Paudel fez um apelo urgente ao diálogo, clamando por calma e pedindo que todas as forças políticas, incluindo os manifestantes, cooperassem para encontrar uma saída pacífica para a crise. A essa altura, o número de mortos já havia subido para 25, com mais de 600 feridos, conforme dados do Ministério da Saúde divulgados em 10 de setembro. (cnnbrasil.com.br, reuters.com, newindianexpress.com).

Os protestos Gen Z no Nepal tornaram-se um fenômeno marcante. Diferentemente de movimentos partidários tradicionais, esses jovens não carregam bandeiras ideológicas rígidas além do repúdio à corrupção e ao autoritarismo. Muitos deles cresceram já em um Nepal republicano e conectados à internet, com acesso às ideias de democracia e liberdade de expressão. “Estamos fartos da corrupção. Outros aguentaram isso, mas deve acabar com a nossa geração”, declarou uma estudante de 20 anos durante as manifestações, criticando a postura autoritária do governo. O fato de exigirem até mesmo a escolha de um primeiro-ministro interino apartidário – os jovens protestantes propuseram o nome de uma ex-chefe da Suprema Corte para liderar um governo de transição – indica a profunda desconfiança nas lideranças políticas atuais, sejam comunistas ou não. Esse clamor por uma figura neutra, de perfil técnico e ilibado, reflete o desejo de uma faxina geral nas instituições antes das próximas eleições. Por ora, os principais partidos parecem negociar a formação de um novo governo civil, possivelmente novamente sob liderança do veterano Sher B. Deuba (Congresso Nepali), numa tentativa de acalmar os ânimos e evitar um vácuo de poder. Mas a mensagem vinda das ruas é clara e ruidosa: a juventude nepalesa não pretende ser mera espectadora e exigirá participação nas decisões sobre seu futuro. (veja.abril.com.br, reuters.com).

Liberdade conquistada e vigilância popular

Os episódios recentes ganham sentido mais amplo quando vistos à luz da história política nepalesa das últimas décadas. O Nepal é hoje um laboratório vivo de como uma sociedade, uma vez consciente do sabor da liberdade, resiste a qualquer tentativa de dominação autoritária. Basta lembrar que foi a mobilização popular que derrubou a monarquia absolutista: em 2006, protestos de centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas, forçando o então rei Gyanendra a abrir mão do poder absoluto e reinstaurar o Parlamento democrático. Dois anos depois, a própria monarquia seria extinta pelo voto dos representantes do povo, e o outrora todo-poderoso rei reduzido à condição de cidadão comum. Aquela vitória do movimento popular, conhecido como Jana Andolan II, marcou uma geração que provou na prática a eficácia da ação coletiva em prol da democracia. Como afirmou um comentarista, “a capitulação do rei diante de um movimento de massa marcou uma vitória definitiva da democracia no Nepal”. (crisisgroup.org, apnews.com).

Com a coroa fora do caminho, os nepaleses passaram a depositar suas esperanças em partidos e líderes eleitos. No entanto, as contínuas decepções com políticos preocupados mais em brigas pelo poder e patronagem do que em resolver os problemas do país alimentaram um certo cinismo na população. Não por acaso, pequenos grupos chegaram a sentir saudade do passado monárquico, argumentando que “no tempo do rei havia mais ordem”. Nos últimos anos, houve até manifestações pró-monarquia organizadas por partidos conservadores, como o Rashtriya Prajatantra (Partido Nacional Democrático), clamando pela volta do monarca e do status do Nepal como reino hindu. Essas vozes, contudo, seguem minoritárias e sem perspectiva real de sucesso. As principais forças políticas nepalesas – incluindo o Congresso Nepali e os partidos de esquerda – rechaçam categoricamente qualquer retrocesso nesse sentido. “O Nepal é uma república e a monarquia nunca será reinstaurada”, cravou Narayan P. Saud, líder congressista veterano da luta democrática de 2006, enfatizando que só uma mudança constitucional impossível de acontecer traria o rei de volta. Em outras palavras, por mais frustrante que seja o funcionamento da república, voltar a um regime autocrático não está em cogitação para a imensa maioria. A solução para as falhas da democracia nepalesa, concordam muitos analistas, não está em menos liberdade, e sim em mais democracia e mais transparência. (eastasiaforum.org, apnews.com).

De fato, a própria derrocada do “regime comunista” de Oli reforçou a vigilância popular sobre os governantes. No instante em que o premiê tentou concentrar poderes demais e romper as regras do jogo democrático, enfrentou resistência do Judiciário, de seu próprio partido e da opinião pública, acabando por cair. E agora, ao recorrer a medidas autoritárias como censurar redes sociais, viu a população – especialmente os jovens – erguer-se contra ele. São sinais de uma sociedade alerta, que aprendeu a identificar e reagir aos sintomas de autoritarismo antes que eles degenerem em algo pior. Essa consciência civil não nasceu da noite para o dia: foi forjada em décadas de luta, sofrimento na guerra civil, conquistas e perdas democráticas. Cada geração nepalesa desde os anos 1990 viveu seu próprio levantamento em prol da liberdade – dos protestos pró-democracia contra o rei nos anos 90 e 2000, às manifestações atuais contra a corrupção e abuso de poder.

O caso do Nepal ilustra vividamente um princípio: uma sociedade que descobre o valor da liberdade não se deixa dominar novamente. Por mais pobre e politicamente instável que o país ainda seja, há hoje no Nepal uma convicção difundida de que governos existem para servir ao povo – e não o contrário. Líderes que tentam se perpetuar no poder ou tolher direitos fundamentais encontrarão, mais cedo ou mais tarde, a resposta firme dos cidadãos, seja pelas instituições democráticas, seja pelas vozes nas ruas. No balanço final, apesar de todas as dificuldades, o Nepal progride passo a passo na consolidação de sua democracia. O caminho não é linear nem isento de retrocessos ocasionais, mas a tendência é clara: a era dos governantes incontestáveis acabou. Resta aos políticos nepaleses – comunistas ou não – entenderem o recado: a população não aceitará mais ser subjugada. A liberdade, uma vez conquistada e compreendida, tornou-se parte essencial da identidade nepalesa, e será defendida com unhas e dentes diante de qualquer ameaça, venha ela de um palácio real ou de um gabinete eleito.

PS.: Alguns sites citados só são acessíveis com uso de VPN.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *