Antes de falecer, meu amigo Temístocles Gonzaga Lapa, o Milton Gonzaga, costumava repetir uma frase que nunca saiu da minha memória:
— *Não tente tirar de mim a única coisa que tenho para sobreviver, que é a minha inteligência.*
Milton trabalhava com um serviço de alto-falante no pequeno povoado de Taquarendi, na Bahia, e dizia aquilo quase como uma declaração de independência. Era sua resposta às muitas pessoas e empresas que, por uma razão ou outra, tentavam dissuadi-lo de suas ideias e de seus projetos.
Ele podia não ter grandes recursos financeiros. Podia estar longe dos grandes centros. Podia não dispor das tecnologias e facilidades que hoje carregamos no bolso. Mas tinha uma coisa da qual não abria mão: a capacidade de imaginar, criar e fazer.
Certo dia, ele mandou um menino me chamar.
Naquela época eu tinha pouco mais de quinze anos. Fui prontamente à sua casa, sem saber exatamente o que ele queria. Quando cheguei, Milton anunciou, com a naturalidade de quem dizia que faria qualquer coisa simples:
— Vou abrir um canal de televisão.
Fiquei imediatamente empolgado.
Embora, para ser sincero, eu não entendesse muito bem como seria possível existir um canal de televisão naquele pequeno povoado.
Mas pasmem: ele fez.
Eu o acompanhava seguindo suas orientações, enquanto ele realizava uma série de tarefas que, naquela idade, eu ainda não conseguia compreender completamente.
Lembro-me de vê-lo subir no telhado. Com ajuda, instalou ali uma enorme antena. Falava sobre equipamentos, transmissão e sinal. Havia fios, aparelhos e explicações técnicas que escapavam ao meu entendimento.
Para mim, aquilo tudo parecia extraordinário.
Depois veio a etapa seguinte:
— Vamos fazer a primeira filmagem.
Taquarendi era um povoado essencialmente agrícola. A vida de muitas famílias girava em torno das plantações de hortaliças, cebolas, cenouras e outros vegetais. Havia uma nascente na região, e a água corria pelo vale, alimentando canais de irrigação que mantinham aquelas terras produtivas.
Era esse o mundo que Milton queria registrar.
Saímos com a câmera.
Ele filmou a paisagem, as plantações e a água percorrendo o vale. Entrevistou trabalhadores. Registrou o processo de irrigação, a colheita, o armazenamento dos produtos, a venda e o transporte.
Hoje talvez alguém retirasse um telefone celular do bolso, gravasse algumas imagens, abrisse um programa de edição e, em pouco tempo, produzisse um vídeo.
Naquele tempo era diferente.
Dias depois, Milton me convidou para acompanhar a edição.
Seu estúdio tinha três aparelhos de videocassete, duas televisões de tubo e várias fitas VHS.
E começou uma verdadeira operação:
Grava.
Para.
Corta.
Passa.
Adianta.
Grava novamente.
Volta.
Corta.
Grava.
Não havia linha do tempo numa tela de computador. Não havia botão para desfazer um erro. Não havia inteligência artificial, filtros automáticos ou edição digital.
Era fita passando de um aparelho para outro.
Para colocar os títulos, Milton filmava um letreiro impresso em papel.
Assim surgiam a abertura, os créditos, as divisões e o encerramento.
Foram aproximadamente cinco horas de trabalho para produzir um vídeo com cerca de quarenta minutos.
Já era tarde quando terminamos.
Estávamos cansados.
Sentamo-nos para assistir a tudo mais uma vez, do começo ao fim, fazendo aquela última revisão que todo criador conhece: observando os detalhes, esperando encontrar algum erro, mas ao mesmo tempo admirando aquilo que finalmente havia tomado forma.
Quando o vídeo terminou, Milton olhou para a televisão, respirou fundo e disse, satisfeito:
— *Digno de um Globo Rural!*
Eu estava feliz com o resultado.
Ele também.
No dia seguinte, surgiu outra missão.
Milton pediu que eu fosse à casa de Dona Edite, uma mulher distinta, leitora assídua de jornais e livros, que possuía um aparelho de televisão.
Fomos até lá.
Mexemos na sintonia.
Giramos os controles.
Procuramos o sinal.
Até que, de repente, a imagem apareceu.
Ali estava, dentro da televisão de Dona Edite, o programa que havíamos produzido.
A plantação.
A água.
Os agricultores.
As entrevistas.
As paisagens de Taquarendi.
O nosso programa estava na televisão.
A notícia correu pelo povoado.
Havia um canal de TV em Taquarendi!
As pessoas ficaram em polvorosa.
Todo mundo queria descobrir como sintonizar aquela novidade.
A transmissão acontecia uma vez por semana. Durante algum tempo, aquele primeiro programa — o nosso *“digno de um Globo Rural”* — foi repetido enquanto Milton produzia, pouco a pouco, novos conteúdos.
A televisão não permaneceu muito tempo no ar.
Talvez alguém pudesse olhar para essa história apenas pelo seu desfecho e dizer:
— Então não deu certo.
Mas estaria olhando para a coisa errada.
Décadas depois, quase não me lembro das dificuldades que fizeram aquele projeto acabar. Porém me recordo perfeitamente da antena sendo colocada sobre o telhado, das fitas VHS girando, das duas televisões de tubo acesas, das cinco horas de edição, da imagem surgindo na casa de Dona Edite e do orgulho com que Milton declarou que aquilo estava “digno de um Globo Rural”.
É curioso como alguns sonhos não precisam durar para sempre para cumprirem sua missão.
Alguns existem para provar que era possível.
Outros existem para transformar quem participou deles.
Aquele pequeno canal de televisão de Taquarendi talvez não tenha deixado arquivos, concessões, torres ou grandes registros históricos. Mas deixou algo em mim.
Eu tinha pouco mais de quinze anos e estava diante de um homem que não aceitava que o tamanho do lugar onde vivia determinasse o tamanho dos seus sonhos.
Não havia estrutura?
Ele improvisava.
Não havia estúdio de televisão?
Ele montava um.
Não havia programa?
Ele produzia.
Não havia computador para editar?
Três videocassetes resolviam.
Não havia emissora?
Ele colocou uma antena no telhado e criou a sua.
Talvez por isso hoje eu compreenda melhor aquela frase que Milton repetia:
— *Não tente tirar de mim a única coisa que tenho para sobreviver, que é a minha inteligência.*
Não era apenas uma defesa da inteligência.
Era uma defesa da possibilidade.
Daquilo que ninguém pode retirar de uma pessoa enquanto ela ainda consegue imaginar um caminho diferente.
Milton me ensinou, sem nunca transformar aquilo em uma aula, que existem momentos em que as condições não serão ideais, os recursos serão poucos e as pessoas ao redor dirão que determinada ideia é exagerada, impossível ou até absurda.
Às vezes elas estarão certas.
Muitas ideias realmente não prosperam.
Mas algumas só precisam de alguém suficientemente teimoso para tentar.
E, vez ou outra, acontece algo maravilhoso:
um homem instala uma antena sobre o telhado de uma casa em um pequeno povoado do interior da Bahia, junta três videocassetes, duas televisões, algumas fitas VHS e transforma uma ideia improvável em realidade.
Talvez não tenha sido a maior emissora do mundo.
Mas, para aquele menino de quinze anos que assistiu a tudo acontecer, foi grande o bastante.
E, naquela noite, depois de cinco horas cortando e gravando fitas, Milton tinha razão:
estava digno de um Globo Rural.

